O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de homicídios dos últimos 15 anos — 22,4 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência. Ao mesmo tempo, 71% dos brasileiros dizem se sentir inseguros no bairro onde moram. Como explicar essa contradição?

Uma pesquisa de opinião conduzida pela Perspectiva Brasil em parceria com o Instituto DataFolha ouviu 8 mil pessoas em 12 capitais brasileiras entre março e maio de 2026. Os resultados revelam que a percepção de insegurança é moldada por fatores que vão muito além dos dados objetivos de criminalidade.

O papel da mídia e das redes sociais

Entre os entrevistados que se dizem muito inseguros, 68% afirmaram que sua percepção é influenciada principalmente pelo que veem nas redes sociais e na televisão — não por experiências diretas com a violência. Apenas 31% relataram ter sido vítimas de algum tipo de crime nos últimos 12 meses.

A pesquisadora Carla Nogueira, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, que colaborou com a análise, aponta que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. "Em vários países, a percepção de insegurança aumentou mesmo quando os índices objetivos de criminalidade caíram. A cobertura midiática e o ambiente das redes sociais amplificam casos isolados e criam uma sensação de ameaça generalizada."

"Existe uma dissociação crescente entre a violência que as pessoas experimentam diretamente e a violência que elas percebem como ameaça. Isso tem consequências políticas importantes — molda demandas por segurança pública que nem sempre correspondem aos problemas reais."
— Carla Nogueira, pesquisadora, NEV-USP

Diferenças regionais e de classe

A pesquisa revela diferenças marcantes por região e classe social. Nas capitais do Norte e do Nordeste, a percepção de insegurança é mais alta — e, nesse caso, mais alinhada com os dados objetivos, já que essas regiões ainda concentram as maiores taxas de homicídio do país.

Curiosamente, entre as classes mais altas — que têm menor probabilidade estatística de serem vítimas de violência — a percepção de insegurança é proporcionalmente mais alta do que entre as classes populares. Os pesquisadores atribuem isso ao maior acesso a informações sobre criminalidade e à maior exposição a narrativas de insegurança nas redes sociais.

Implicações para a política pública

Os resultados têm implicações diretas para a política de segurança pública. Se a percepção de insegurança é parcialmente descolada da realidade objetiva, políticas baseadas exclusivamente em resposta à demanda popular podem não ser as mais eficazes.

"Não estamos dizendo que a percepção das pessoas não importa — ela importa muito, inclusive para a qualidade de vida e para a coesão social. Mas precisamos entender melhor o que a forma, para poder agir sobre ela de forma mais inteligente", conclui Dra. Carvalho.