O debate sobre o Bolsa Família no Brasil raramente escapa de dois extremos: de um lado, os que veem o programa como a maior conquista social das últimas décadas; de outro, os que o descrevem como um mecanismo de dependência que desincentiva o trabalho. Um estudo de longo prazo conduzido pelo Núcleo de Pesquisa em Políticas Sociais da UFPE oferece uma perspectiva mais nuançada — e mais incômoda para ambos os lados.
A pesquisa acompanhou 12 mil famílias beneficiárias do programa entre 2010 e 2025, comparando sua trajetória com um grupo de controle de características semelhantes que não recebeu o benefício. Os resultados mostram que o programa teve impacto positivo e significativo em indicadores de saúde, educação e nutrição — especialmente para crianças. Mas os efeitos sobre a mobilidade econômica de longo prazo são mais modestos do que os defensores do programa costumam afirmar.
O que o estudo encontrou
Filhos de beneficiários do Bolsa Família têm, em média, 1,8 anos a mais de escolaridade do que filhos de famílias do grupo de controle. A taxa de mortalidade infantil nas famílias beneficiárias caiu 23% no período analisado. A prevalência de desnutrição infantil reduziu-se em 31%.
Esses são resultados expressivos. Mas quando se olha para a renda das famílias 15 anos depois, a diferença entre beneficiários e não beneficiários é de apenas 8% — um número positivo, mas menor do que o esperado dado o investimento do programa.
"O Bolsa Família é muito bom em fazer o que foi desenhado para fazer: garantir um piso de consumo e melhorar indicadores de bem-estar. Mas não foi desenhado para ser um programa de mobilidade econômica, e não devemos avaliá-lo por esse critério."
— Prof. André Mendonça, economista, UFPE
O problema da complementaridade
O estudo aponta que os maiores benefícios do programa ocorreram quando ele foi combinado com outras políticas — acesso a creches, qualidade das escolas públicas, serviços de saúde. Nas regiões onde esses serviços eram mais precários, os efeitos do Bolsa Família sobre a mobilidade de longo prazo foram menores.
"Isso confirma o que a literatura internacional já mostrava: transferência de renda funciona melhor quando é parte de um sistema integrado de proteção social, não quando é o único instrumento disponível", explica Mendonça.
A pesquisa completa será publicada na Revista Brasileira de Economia Social em agosto. Os dados do painel longitudinal estarão disponíveis para outros pesquisadores mediante solicitação ao núcleo.