Os microdados da PNAD Contínua de 2025, divulgados pelo IBGE em maio, confirmam uma realidade que pesquisadores vêm documentando há décadas: no Brasil, a cor da pele continua sendo um fator determinante para os rendimentos no mercado de trabalho, independentemente do nível de escolaridade.
A análise conduzida pela equipe da Perspectiva Brasil revela que trabalhadores negros com ensino superior completo recebem, em média, 28% menos do que trabalhadores brancos com a mesma qualificação. Para o ensino médio completo, essa diferença é de 22%. Os números são ligeiramente melhores do que os de 2020, mas a tendência de convergência é lenta — ao ritmo atual, levaria mais de 40 anos para eliminar o gap salarial.
Além dos salários
A desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro vai além dos salários. Os dados mostram que trabalhadores negros têm menor probabilidade de ocupar cargos de liderança, menor acesso a benefícios como plano de saúde e previdência privada, e maior concentração em setores de alta informalidade.
No setor formal privado, apenas 18% dos cargos de gerência e direção são ocupados por pessoas negras — um número que contrasta com os 56% da população brasileira que se autodeclara preta ou parda.
"Não estamos falando de discriminação individual apenas. Estamos falando de um sistema que reproduz desigualdades de forma estrutural, através de redes de contratação, critérios de promoção e culturas organizacionais que privilegiam determinados perfis."
— Dra. Simone Carvalho, socióloga, Perspectiva Brasil
O impacto das políticas de cotas
As cotas raciais nas universidades públicas, implementadas a partir de 2012, têm gerado efeitos positivos mensuráveis. A proporção de trabalhadores negros com ensino superior aumentou de 8,3% em 2012 para 16,7% em 2025 — um crescimento expressivo, mas ainda muito abaixo dos 37% registrados entre trabalhadores brancos.
O economista Márcio Moreira, da UFBA, que colaborou com a análise, aponta que os efeitos das cotas levam tempo para se manifestar plenamente no mercado de trabalho. "Estamos vendo a primeira geração de cotistas chegando a posições de liderança. O impacto real vai aparecer nos dados dos próximos dez anos."
O que os dados não mostram
Uma limitação importante desta análise é que os dados da PNAD Contínua capturam apenas a dimensão formal do mercado de trabalho. A desigualdade racial na informalidade — onde as condições são ainda mais precárias — é mais difícil de mensurar, mas provavelmente mais severa.
A pesquisa completa, com metodologia detalhada e dados desagregados por região, será publicada no próximo número da Perspectiva Brasil. Os dados brutos estarão disponíveis para download mediante solicitação.